Toque ou touch?

Ouve-se os sussurros de quem assistia ao filme comigo: “calças estranhas”

Ouve-se os sussurros de quem assistia ao filme comigo: “calças estranhas”. Estranhas porque o cós atinge uma linha paralela ao de hoje: um muito em cima, outro muito embaixo. Eu sempre gostei do mediano, aliás. 
 
O roteiro narra a paixão do solitário escritor Theodore (Joaquin Phoenix) pela voz afável — ainda que programada — de Samantha (Scarlett Johansson), seu novo programa operacional para computador. Engraçado como o enredo e a estética do filme andam em linhas paralelas e paradoxais. Um futuro — não tão distante do nosso — coloca na tela um papel de parede setentista, dos tempos de toque e contato pele com pele. Porém, as camisas aparecem fechadas e tantas vezes cobertas com casacos, como se estivessem proibindo o toque de alguém. O calor — tão frio — de Theodore, aparece no figurino cor de fogo, na calça de feltro, na luz alaranjada de Samantha, nas cartas de sentimentos vendidas e em uma única gota de suor do desespero de estar off-line. “Ela” nos despe o raciocínio quando vemos o conservadorismo no figurino, nos envolve com a rapidez audaciosa de acreditar no amor virtual e logo nos faz obsoletos, como toda máquina é.
 
Ainda que tentem provar que a tecnologia veio para diminuir um milhão de quilômetros de distância, “Ela” tenta provar que a tecnologia aumenta a distância de um cós para o outro: hoje permite o toque, amanhã permitirá o touch.

Filme: Ela
Ano: 2013, Estados Unidos
Direção: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams e Rooney Mara  
Gêneros: drama, romance e ficção científica
Figurinista: Casey Storm
Indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro (vencedor)