Arte no corpo

Em muitos momentos da história vista como arte marginal, as tatuagens agora alcançam até as camadas mais elitizadas

Aparentemente moderna e transgressora, o primeiro registro de tatuagem foi descoberto no cadáver de um homem da Idade do Cobre, que foi apelidado de “Ötzi” pelo cientistas, por ter sido encontrado em uma geleira derretida nos Alpes de Ötztal. Seus restos mortais datam de 3300 anos antes de Cristo. 
 
Conforme a National Geographic, desenhos também estavam presentes na pele de mulheres que dançavam nos funerais egípcios, por volta de 2000 antes de Cristo e, mais tarde, foram descobertas, nesta mesma civilização, tatuagens que representavam Bes, a deusa egípcia da fertilidade e da proteção dos lares. 
 
Ao longo da história, as tattos já foram utilizadas das mais variadas formas: como símbolos de devoção religiosa, ritos de passagem; condecorações por bravura; marcas de párias, escravos e condenados; de status, hierarquia ou espiritualidade; como iscas sexuais e marcas de fertilidade; promessas boas e más; além de talismãs para proteção. Até a década de 60, as tatuagens não eram vistas, nos Estados Unidos, como marca de gangues e de prisioneiros, mas isso mudou. Até hoje, por mais que estejam em ascensão na aceitação popular, ainda enfrentam o preconceito de alguns grupos sociais da sociedade ocidental. 
 
No Brasil, a arte surgiu nessa mesma época, em Santos, introduzida por Lucky Tattoo, mas ganhou o estigma de arte marginal, que se manteve viva por décadas. Com as redes sociais e os meios de comunicação, as tattoos alcançaram todas as camadas da população e, a partir dos anos 90, passaram a ser tendência significativa para a moda global. 
 
Na primeira década do século XXI, a cultura pop tornou as tatuagens mais evidentes., ela deixou de ter o mesmo significado de anteriormente, deslocando-se da condição de uma forma de desvio para uma forma aceitável de expressão. Porém, um dos marcos para essa mudança de concepção é anterior: Janis Joplin, com o desenho de uma pulseira e de um coração no peito, foi fundamental para a aceitação popular das tatuagens como arte. Fato é que a cultura da tatuagem cresceu e tem incentivado a formação de novos artistas, inclusive de mulheres que, cada vez mais,  fazem parte desse mercado. 
 
 
Muito além dos traços
 
Proprietários do estúdio Tattoo Arts, Ronaldo Grecco e Mariana Domenes têm muito mais do que a tatuagem em comum: são casados há 14 anos, têm dois filhos — Kauã, de 13 anos, e  Noah, de dois anos e 10 meses. “Nosso encontro foi através da minha irmã, o Ronaldo era amigo dela. No primeiro mês, já estávamos namorando, no segundo, nos casamos e, no terceiro mês, já estava grávida do Kauã”, conta Mariana. Ronaldo vive dentro dos estúdios de tattoo desde os 11 anos. Mariana, apesar de ter 15 anos de estúdio, é tatuadora há três, mas acompanha o marido desde o início e é grata por ele tê-la motivado e apoiado em todos os momentos. 
 
Eles abriram o estúdio há 14 anos. “Desde 2012, fui aprendiz do Ronaldo. Nesse período, com muita dedicação, estudo, humildade, amor e paciência, dediquei-me à arte”, conta a tatuadora. Tatuador há 14 anos, Ronaldo tem sua arte como estilo de vida. “A tattoo me faz quem eu sou, mostra de onde vim e para onde vou. Ser tatuador exige ter respeito pelos mais velhos de profissão, pois sem eles não teria espaço para os novos tatuadores. A tatuagem vem evoluindo ano após ano. Devemos todo esse crescimento aos que começaram e aos que tentam manter a verdadeira tatuagem viva”, comenta o artista. Para quem quer ser tatuador é muito mais do que simplesmente tatuar. Exige muito estudo sobre pigmentação, anatomia, biossegurança, harmonia, desenho, dermatologia e comportamento. 
 
Mariana trabalha o estilo tradicional, mais conhecido como “old school”, cujas características são linhas expressivas e pintura sólida, uma tatuagem simples e verdadeira, porém com um alto grau de dificuldade por se tratar de detalhes precisos e ser altamente técnica. Ronaldo se dedica à tatuagem oriental, baseada em xilogravuras e desenhos específicos para a cultura. “Esses dois estilos difundiram a tatuagem, vêm sendo feitos e respeitados há muitos anos. Essa é a diferença entre a tradição e a modernidade: por  existirem outros estilos mais modernos, a tatuagem vem sendo procurada por todos os públicos, mas muitos que querem ter uma tattoo ‘verdadeira’, procuram tatuadores tradicionais e dizem não à moda. Uma pessoa pode se definir por um estilo de tattoo, mas um estilo de tattoo não pode definir uma pessoa”, ressaltam os tatuadores. 
 
Ronaldo estuda a cultura japonesa há 13 anos e essa dedicação e desenvolvimento da arte permitiram com que trabalhasse em estúdios da Europa, em Londres e na Itália, para onde volta, pelo menos, duas vezes ao ano. “Foi uma experiência muito boa, pois tenho contato com excelentes tatuadores com os quais posso compartilhar aprendizado.  Trabalhei no maior estúdio em San Diego, na Califórnia, por um ano e meio, onde morei com minha família. Tive a oportunidade de trabalhar em Orlando, de participar de grandes convenções de tatuagens como expositor. Sou muito grato à tatuagem por ter me proporcionado isso”, ressalta o tatuador. Além de ganhar com a experiência, o artista teve acesso aos melhores materiais de tatuagem do mercado que não existem no Brasil.
 
Apesar disso, para Ronaldo e Mariana, mesmo que o número de tatuadores tenha crescido bastante no país, há muitos que tatuam somente pelo dinheiro e se esquecem da arte e do que ela realmente representa. “Não podemos comprar um bisturi e nos considerarmos médicos. O fácil acesso a materiais de tattoo, o título de tatuador, a falta de informação e a busca por dinheiro resultam em tatuagens de má qualidade. Os profissionais sérios e verdadeiros não veem isso como concorrência, mas atrapalha, pois muitos preferem o preço à qualidade”, comentam. Ronaldo conta que, há mais de 14 anos, era muito restrito o acesso a informações sobre tatuagem, mas, sempre buscou referências em trabalhos de bons  tatuadores. “Agradeço ao Gabriel Oliveira e ao Bobo por me darem essa força sempre que precisei. O tempo foi passando e aprimorei cada vez mais a técnica, com muito estudo, respeito, humildade  e disciplina”, destaca. 
 
Tanto em relação à vida, quanto em relação ao trabalho, as conquistas do casal se respaldam no apoio mútuo: Ronaldo destaca que Mariana sempre foi sua companheira em tudo, o motivou e acompanhou em todos os momentos. “Crescemos juntos, estudamos, desenhamos, tatuamos, sempre juntos. Nosso estúdio é o nosso lar, um ambiente familiar onde temos o prazer de receber nossos clientes e quase todos tornam se amigos. Temos uma equipe maravilhosa de tatuadores:  Gabriel Cordeiro, Cesar Malnova e Thiago Ferreira. Agradecemos a Deus por estarmos seguindo em frente e crescendo com muito amor e harmonia. Não conseguimos  trabalhar com outra coisa, além de tattoo”, destaca o Ronaldo. 
 
 
Uma arte de muitos estilos
 
Márcio Nascimento também tem seu próprio estúdio de tatuagem, que recebe o nome Márcio Tattoo. Com ele, trabalham dois tatuadores, Mister Titta, especializado em cobertura e outros estilos, e Diogo Rios, que domina os estilos tribal e black work. Mais do que arte no corpo, Márcio define tatuagem como sua própria vida, tanto que, para ele, as tatuagens que traz na pele representam a linha do tempo de sua vida. Há 20 anos na profissão, começou a carreira no estúdio Med Line, que foi fundado por ele e por colegas. Depois de dois anos, seguiu carreira solo e, agora, outros tatuadores trabalham para ele. “Diferente do que todos pensam, a tatuagem exige muito estudo em desenho, arte e tatuagem, assim como em novas técnicas de aplicação e materiais”, explica. 
 
O tatuador se dedica ao estilo oriental tradicional, Yakuza, um trabalho feito, principalmente, nos mafiosos, no Japão, que acabou chegando ao país. Para Márcio, a tatuagem é um mercado em plena transformação que deve passar por muita mudança, até se estabilizar como uma profissão — até hoje fazer tatuagens não é considerado uma. “Só somos lembrados em campanhas contra hepatite, sendo que, na maioria dos casos, o vírus é transmitidos nas manicures”, afirma o tatuador.   
 
O mercado de tattoo, conforme o artista, está bem mais aquecido do que o de anos atrás. “O número de profissionais aventureiros cresceu na mesma proporção e, para nós, isso é ruim, pois muitas pessoas acabam caindo nas mãos desses ‘tatuadores’ e vindo ao nosso estúdio para uma eventual cobertura ou reforma”, comenta Márcio. Não foram somente os profissionais que mudaram; o público também se modificou. “Agora, quem nos procura é, na maioria, modistas, pessoas que veem a tatuagem na novela, no filme e querem fazer. Às vezes, nem gosta, faz somente para ser aceito. Antigamente, eram feitas apenas por pessoas que gostavam muito ou que pertenciam a algum grupo especifico, como metaleiros, punks, entre outros”, conta Márcio. 
 
Desde que começou, Diogo Rios percebeu o aumento tanto de bons quanto de maus profissionais, mas não encara esse quadro exatamente como concorrência. “Tem trabalho para todos, mas os melhores se destacam, ganham confiança e reconhecimento com o trabalho bem desenvolvido”, define, acrescentando que, antigamente, a tatuagem era muito procurada por um público mais alternativo e, hoje, alcançando até as camadas mais elitizadas.
 
A carreira de Diogo começou em Araxá, Minas Gerais, como body piercer, mas logo se interessou pela tatuagem e, por lá, arriscou os primeiros passos na pele dos amigos. Teve, então, a oportunidade de trabalhar em Ribeirão Preto, por meio de um amigo, que o iniciou na área. Passou por outros estúdios, onde buscou adquirir o máximo de conhecimento possível, até que, há sete anos, passou a trabalhar no estúdio de Márcio Tattoo. “Para mim, qualquer profissão exige um aperfeiçoamento, uma busca por melhoras. Na área em que atuamos, a técnica se desenvolve com o passar do tempo de carreira, sempre há novidades, e procuro me desenvolver para melhorar a cada dia”, ressalta.
 
O artista trabalha nos estilos Tribal e Black Work, feito apenas com pigmentos pretos e artes mais modernas, como mandalas e padrões geométricos. Há 12 anos na área, o artista acredita que a tatuagem é uma forma de expressão: cada pessoa tenta mostrar um pouco de si por meio da arte impressa na pele. “Na maioria das vezes, a pessoa busca um desenho que simbolize algo marcante em sua vida, que tenha a ver com sua história e personalidade”, comenta Diogo, que não se vê trabalhando em outra profissão, ao contrário, no futuro quer agregar algo mais à essa arte.